quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Dezembro: Fim e Recomeço



O mês de dezembro representa um fim... mas um fim que anuncia um recomeço ou um novo ano. Essa sucessão de anos, que vão sendo contados em ordem crescente, faz pensar: um aumento numérico sem aumento qualitativo pode gerar monstruosidade; exige qualidade correspondente à quantidade que cresce. O fim do ano nos aproxima do fim de nossa caminhada na terra, mas nos aproxima também do começo de nossa vida definitiva. Se o corpo envelhece, a alma não envelhece; é dotada de juventude perene; se na velhice do corpo ela não se manifesta, isto se deve a deterioração do corpo, e não a insuficiência da alma humana, que tem o corpo como seu instrumento. Nesse contexto pode-se crer que três sentimentos movem o cristão peregrino na terra:
1) Gratidão ao Senhor pelo dom da vida. O tempo é a primeira dádiva de Deus ao homem; é tempo redimido pelo sangue de Cristo, tempo de santificação ou kairós. Junto com a gratidão vai um ato de arrependimento pelo possível descaso do tempo que foi confiado a cada um. Arrepender-se não humilha é atitude nobre, que supõe a coragem de reconhecer a verdade e confessá-la a Deus e a quem compete ouvi-la.
2) Mais maturidade... A vida é uma escola, em que vamos aprendendo a escalonar sempre melhor os nossos valores, de modo a viver sempre mais acertadamente na demanda do Absoluto e Definitivo. O começo de novo ano é um convite a mais seriedade e profundidade. São Paulo fala muito do crescer em maturidade: "Não sejamos crianças, joguetes das ondas, sacudidos por qualquer vento de doutrina; ao contrário, com a sinceridade do amor, cresçamos até alcançar inteiramente aquele que é a Cabeça, Cristo" (Ef 4,14s).
3) Alegria... Se, de um lado, o corpo vai-se fragilizando com o tempo e obrigando a renunciar a muitos valores legítimos, de outro lado, o cristão se regozija porque vai chegando ao fim da sua peregrinação e, como um barco que navega, é mais e mais penetrado pela luz da vida definitiva emitida pelo porto ao qual tende. A vida do cristão não pode deixar de ser marcada por uma viva alegria interior, pois deve ser um progresso que, deixando para trás infantilismo e imaturidade, vai sendo invadida pelos valores eternos que lhe serão cada vez mais próximos. Só há um mal que possa perturbar essa alegria íntima: o pecado ou a fuga diante do Absoluto e Eterno.

 
Pe. Estêvão Bettencourt, OSB 
(Nascimento: 16/09/1919, no Rio de Janeiro, RJ e 
Falecimento: 14/04/2008, no Rio de Janeiro, RJ)
Diretor Emérito da Escola Mater Ecclesiae  

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O que realmente importa...

Crônicas Saxônicas


A CANÇÃO DA ESPADA

Quarta parte da série as Crônicas Saxônicas


Escuridão. Inverno. Noite de geada e sem lua. Flutuávamos no rio Temes, e para além da proa alta do barco eu podia ver as estrelas refletidas na água reluzente. O rio estava cheio, alimentado pela neve dos morros incontáveis. Os regatos temporários fluíam das terras altas, de calcário, em Wessex. No verão aqueles riachos estariam secos, mas agora espumavam descendo pelos morros compridos e verdes, enchiam o rio e fluíam para o mar distante. Nosso barco, que não tinha nome, estava perto da margem no lado de Wessex. Ao norte, do outro lado do rio, ficava a Mércia. Nossa proa apontava rio acima. Estávamos escondidos entre os galhos dobrados e sem folhas de três salgueiros, mantidos ali contra a corrente por uma corda de couro amarrada a um dos galhos. Éramos 38 naquele barco sem nome, um navio mercante que costumava atuar nas partes mais altas do Temes. O comandante do navio se chamava Ralla e estava a meu lado com a mão no remo-leme. Eu mal podia vê-lo no escuro, mas sabia que ele estava usando gibão de couro e tinha uma espada à cintura. O restante de nós usava couro e cota de malha, tínhamos elmos e levávamos escudos, machados, espadas ou lanças. Esta noite iríamos matar. Sihtric, meu servo, agachou-se a meu lado e passou uma pedra de amolar na lâmina de sua espada curta.

— Ela diz que me ama — argumentou.

— Claro que diz — respondi.

Ele parou, e quando falou de novo sua voz havia se animado, como se tivesse ganhado coragem com minhas palavras.

— E já devo ter 19 anos, senhor! Talvez até 20, quem sabe?

— Dezoito? — sugeri.

— Eu já poderia estar casado há quatro anos, senhor!

Falávamos quase aos sussurros. A noite era repleta de sons. A água ondulava, os galhos nus estalavam ao vento, uma criatura da noite chapinhou no rio, uma raposa uivou como uma alma agonizante, e em algum lugar uma coruja piou. O barco rangia. A pedra de Sihtric sibilava e raspava o aço. Um escudo bateu num banco de remador. Eu não ousava falar mais alto, apesar dos ruídos da noite, porque o navio inimigo estava rio acima e os homens que haviam desembarcado teriam deixado sentinelas a bordo. Essas sentinelas poderiam ter nos visto enquanto deslizávamos rio abaixo junto à margem mércia, mas agora certamente deviam pensar que tínhamos seguido há muito na direção de Lundene.

— Mas por que se casar com uma puta? — perguntei a Sihtric.

— Ela é...

— Ela é velha — rosnei. — Deve ter uns 30 anos. E é meio doida. Ealhswith só precisa ver um homem para abrir as coxas! Se você enfileirasse cada homem que montou naquela puta, teria um exército suficiente para conquistar toda a Britânia. — A meu lado, Ralla deu um risinho. — Você estaria nesse exército, Ralla? — perguntei.

— Mais de vinte vezes, senhor — respondeu o comandante do navio.

— Ela me ama — insistiu Sihtric, carrancudo.

— Ela ama sua prata — disse eu —, e, além disso, por que colocar uma espada nova numa bainha velha?

É estranho o que os homens falam antes da batalha. Qualquer coisa, menos sobre o que os espera. Já estive numa parede de escudos, olhando para um inimigo luminoso de espadas e sombrio de ameaças, e ouvi dois de meus homens discutindo furiosamente sobre que taverna fazia a melhor cerveja. O medo paira no ar como uma nuvem e falamos de nada, para fingir que as nuvens não se encontram ali.

— Procure alguma coisa madura e nova — aconselhei Sihtric. — A filha daquele oleiro está pronta para casar. Deve ter 13 anos.

— Ela é idiota — questionou Sihtric.

— E o que você é, então? Eu lhe dou prata e você derrama no buraco aberto mais próximo! Da última vez em que vi, ela estava usando um bracelete que dei a você. Sihtric fungou e não disse nada. Seu pai era Kjartan, o Cruel, um dinamarquês que o havia gerado em uma de suas escravas saxãs. No entanto, Sihtric era um bom garoto, ainda que na verdade não fosse mais garoto. Era um homem que havia estado numa parede de escudos. Um homem que havia matado. Um homem que mataria de novo esta noite.

Trecho da obra distribuída gratuitamente pelo Site Bernard Cornwell Brasil com a permissão da Editora Record.

Para conhecer um pouco mais da história, acesse: http://bctrechoslivros.vilabol.uol.com.br/saxonicas4.pdf

sábado, 4 de dezembro de 2010

Advento

Contextualizando o Advento no Ano Litúrgico, a História da Salvação diz-nos que o tempo é progresso e que o futuro pode ser radicalmente novo. O Ano Litúrgico é a celebração, no decurso de um ano, de todo o mistério de Cristo. Mas é importante ressaltar que é a celebração não de uma ideia e sim de uma pessoa, que nos é próxima: Jesus Cristo.
O tempo do Advendo, é um tempo de espera, de aguardar aquele que virá. O Novo Calendário Litúrgico Romano expõe o significado do Advento: “O tempo do Advento tem uma dupla característica: é tempo de preparação para a solenidade do Natal, em que se recorda a primeira vinda do Filho de Deus entre os homens, e simultaneamente é o tempo no qual, através desta recordação, o espírito é conduzido á espera da segunda vinda de Cristo no final dos tempos.” “Advento” significa vinda, chegada.
O tempo do Advento recorda-nos três vindas de Cristo: a primeira, da humildade, que teve a primeira manifestação há cerca de dois mil anos, na Gruta de Belém; a segunda, da glória, que acontecerá no fim dos tempos e a vinda intermédia, silenciosa, que acontece hoje, em cada momento.
O Advento é a celebração cristã da ESPERANÇA do Povo de Deus ao longo da história. Recorda-se na liturgia Israel – que esperava o Messias – e a comunidade cristã primitiva – que esperava a segunda vinda do Senhor. O Advento lembra-nos que a verdadeira história da humanidade é a história da salvação e revela-nos Cristo escondido no nosso mundo.
Cristo, além de ser o alfa e o ômega, o princípio e o fim, é ainda o centro da história da Salvação e de todos os âmbitos da história humana. A liturgia de Advento aplica, por isso, a Jesus Cristo
os seguintes títulos messiânicos: Messias, Libertador, Salvador, Esperado das nações, Anunciado pelos profetas, Emanuel…
Maria assume um papel fundamental na história da Salvação e na vida da Igreja. Ela é o modelo da esperança cristã. O Advento é o seu tempo, por excelência. Em Maria, a humanidade é ”cúmplice” e íntima de Deus. As dimensões da figura de Maria, neste tempo litúrgico são: Presença, Exemplo e Intercessora.
Nossa Senhora possui muitos títulos devido a ocasião, dentre eles: Cheia de graça, Bendita entre as mulheres, Virgem e vários outros.
No tempo do Advento, a Igreja tem que manter uma atitude de Oração e vigilância diante do Senhor que vem e anúnciar a vinda de Cristo, a exemplo de João Baptista, o Precursor, transmitindo a esperança ao mundo que ainda é marcado pela guerra e pela dor. Uma esperança que tem um rosto – Cristo – e que é resposta aos anseios mais profundos da pessoa humana. A Igreja deve ainda se empenhar no mundo, no trabalho, na família, nas estruturas sociais, em todos os ambientes para a transformação e a abertura à salvação de Deus.
É preciso enfim, alegrarmo-nos e louvar o Senhor que vem. Se vivermos tais atitudes neste Advento, viveremos então uma espiritualidade comprometida.

Crônicas Saxônicas


Os Senhores do Norte
As Crônicas Saxônicas - Volume 3

Thorkild deixou o barco flutuar rio abaixo por uns cem passos, depois fez a proa se chocar na margem perto de um salgueiro. Pulou em terra, amarrou uma corda de couro de foca no tronco do salgueiro para atracar o barco e então, com um olhar temeroso para os homens armados que vigiavam de mais acima na margem, voltou rapidamente a bordo.
— Você — apontou para mim —, descubra o que está acontecendo.
— O que está acontecendo é encrenca — respondi. — Você precisa saber mais?
— Preciso saber o que aconteceu com meu armazém — disse ele, depois fez um gesto com a cabeça na direção dos homens armados. — E não quero perguntar a eles. Portanto, você pode.
Ele me escolheu porque eu era guerreiro e porque, se eu morresse, ele não lamentaria. A maior parte de seus remadores era capaz de lutar, mas ele evitava o combate sempre que podia porque o derramamento de sangue era mau parceiro do comércio. Os homens armados vinham avançando pela margem. Eram seis, mas se aproximaram com muita hesitação porque Thorkild tinha o dobro de homens em seu navio e todos aqueles marinheiros estavam armados com machados e lanças. Vesti a cota de malha, desembrulhei o glorioso elmo com crista de lobo que havia capturado de um barco dinamarquês perto do litoral de Gales, prendi o cinto de Bafo de Serpente e Ferrão de Vespa e, assim vestido para a guerra, pulei desajeitado na margem. Escorreguei no barranco íngreme, agarrei-me em espinheiros para me apoiar e então, xingando por causa dos espinhos, consegui subir. Eu já estivera ali antes: era a ampla pastagem junto ao rio onde meu pai havia liderado o ataque contra Eoferwic. Coloquei o elmo e gritei para Thorkild me jogar o escudo. Ele fez isso e, no momento em que eu ia caminhar na direção dos seis homens que agora estavam parados me olhando com as espadas nas mãos, Hild pulou atrás de mim.
— Você deveria ter ficado no barco — alertei.
— Não sem você. — Ela estava carregando nossa única bolsa de couro, na qual havia pouco mais do que uma muda de roupa, uma faca e uma pedra de amolar. — Quem são eles? — perguntou, falando dos seis homens que ainda estavam a uns cinqüenta passos de nós e sem pressa de diminuir a distância.
— Vamos descobrir — respondi, e desembainhei Bafo de Serpente.

Trecho da obra distribuída gratuitamente pelo 
Site Bernard Cornwell Brasil com a permissão da Editora Record.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Crônicas Saxônicas

O CAVALEIRO DA MORTE
Segunda parte da série as crônicas saxônicas



Hoje em dia olho os garotos de 20 anos e acho que são pateticamente jovens, mal saídos das tetas das mães, mas quando tinha 20 anos eu me considerava adulto. Era pai, havia lutado na parede de escudos e odiava receber conselhos de qualquer pessoa. Resumindo: era arrogante, imbecil e cabeça-dura. Motivo pelo qual, depois da nossa vitória em Cynuit, fiz a coisa errada. Havíamos lutado contra os dinamarqueses junto ao oceano, onde o rio sai do grande pântano e o mar de Sæfern bate num litoral lamacento, e onde os havíamos derrotado. Tínhamos realizado uma grande matança, e eu, Uhtred de Bebbanburg, fizera minha parte. Mais do que a minha parte, já que no fim da batalha, quando o grande Ubba Lothbrokson, o mais temido líder dinamarquês, havia penetrado em nossa parede de escudos com seu grande machado de guerra, eu o enfrentei, derrotei e o enviei para se juntar ao einherjar, o exército de mortos que festejam e copulam no palácio de cadáveres de Odin. O que eu deveria ter feito então, o que Leofric me mandou fazer, era cavalgar a toda velocidade até Exanceaster, onde Alfredo, rei dos saxões do oeste, estava sitiando Guthrum. Deveria ter chegado tarde da noite, acordado o rei de seu sono e posto, aos pés de Alfredo, o estandarte de batalha de Ubba com a imagem do corvo preto e o grande machado de guerra de Ubba, ainda com uma crosta de sangue na lâmina. Deveria ter dado ao rei a boa notícia de que o exército dinamarquês estava derrotado, que os poucos sobreviventes haviam ido para seus navios com cabeças de dragão, que Wessex estava em segurança e que eu, Uhtred de Bebbanburg, havia realizado todas essas coisas. Em vez disso, fui encontrar minha mulher e meu filho. Aos 20 anos eu preferia estar montando em Mildrith do que colhendo a recompensa da minha sorte, e foi isso que fiz de errado, mas, olhando para trás, tenho poucos arrependimentos. O destino é inexorável, e Mildrith, ainda que eu não tivesse desejado me casar com ela e pensasse detestá-la, era um belo animal para ser montado. Assim, naquele fim de primavera do ano 877, passei o sábado cavalgando até Cridianton em vez de ir até Alfredo. Levei vinte homens e prometi a Leofric que estaríamos em Exanceaster ao meio-dia do domingo e me certificaria de que Alfredo soubesse que havíamos ganhado sua batalha e salvado seu reino.
— Odda, o Jovem, já deve estar lá — alertou Leofric. Leofric tinha
quase o dobro da minha idade, era um guerreiro endurecido por anos lutando contra os dinamarqueses.
— Ouviu? — perguntou ele quando não falei nada.
— Odda, o Jovem, já deve estar lá — repetiu —, e ele é um merdinha que vai receber todo o crédito.
— A verdade não pode ser escondida — respondi altivo.
Leofric zombou disso. Era um brutamontes barbudo e atarracado que deveria ser comandante da frota de Alfredo, mas não era bem-nascido. E com relutância Alfredo me havia concedido o controle dos 12 navios porque eu era ealdorman, um nobre, e era justo que um homem bem-nascido comandasse a frota dos saxões do oeste mesmo que fosse idiotice demais confrontar a enorme quantidade de navios dinamarqueses que tinham vindo para a costa sul de Wessex.
— Há ocasiões em que você é um earsling — resmungou Leofric. Um earsling era uma coisa que havia caído do traseiro de uma criatura, e era um dos insultos prediletos de Leofric. Éramos amigos.


Trecho da obra distribuída gratuitamente pelo
Site Bernard Cornwell Brasil
com a permissão da Editora Record.




Para ler um pouco mais acesse: http://bctrechoslivros.vilabol.uol.com.br/saxonicas2.pdf

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Crônicas Saxônicas


Recentemente li a coleção (ainda não terminada) Crônicas Saxônicas, de Bernard Cornwell. Os livros são incríveis! O autor enriquece a obra com tantos detalhes que é fácil se imaginar nas cenas descritas no livro. Vou publicar trechos dos livros para que conheçam e compreendam minha fascinação.


O último Reino - Livro 1

Nortúmbria, 866-867 d.C.

Meu nome é Uhtred. (...) Sou um ealdorman, mas me chamo de earl Uhtred, o que é a mesma coisa, e os pergaminhos desbotados são prova do que possuo. A lei diz que possuo aquelas terras, e a lei, pelo que dizem, é o que nos torna homens sob os olhos de Deus, em vez de animais na lama. Porém a lei não me ajuda a ter de volta minhas terras. A lei quer acordo. A lei acha que o dinheiro compensará a perda. A lei, acima de tudo, teme as rixas de sangue. Mas sou Uhtred, filho de Uhtred, e esta é a história de uma rixa de sangue. É a história de como tomarei de meu inimigo o que a lei diz que é meu. E é a história de uma mulher e de seu pai, um rei.

Ele era meu rei, e tudo que tenho devo a ele. A comida que como, o

castelo onde vivo e as espadas de meus homens, tudo veio de Alfredo, meu rei,

que me odiava. (...)


Trecho da obra distribuída gratuitamente pelo
Site Bernard Cornwell Brasil
com a permissão da Editora Record.